Cultura Atsa Puyanawa
Atsa Puyanawa 2026 tem início celebrando a resistência, a ancestralidade e o fortalecimento da cultura indígena
A Terra Indígena Puyanawa Barão Ipiranga, localizada a cerca de 25 quilômetros do centro de Mâncio Lima, amanheceu em clima de celebração neste sábado, 18.
18/07/2026 21h09 Atualizada há 15 horas
Por: Redação

A Terra Indígena Puyanawa Barão Ipiranga, localizada a cerca de 25 quilômetros do centro de Mâncio Lima, amanheceu em clima de celebração neste sábado, 18, com a abertura oficial da 8ª edição do Festival Atsa Puyanawa, um dos maiores eventos de valorização da cultura indígena do Acre. A cerimônia reuniu lideranças tradicionais, indígenas de diversas aldeias, estudantes, autoridades municipais e estaduais, além de visitantes de várias regiões do Brasil e de países da Europa e da América do Sul.

Mais do que um festival, o Atsa Puyanawa representa a reafirmação da identidade de um povo que transformou décadas de sofrimento em resistência, reconstruindo sua língua, seus rituais, seus grafismos, seus cantos e suas tradições. Criado em 2016, o evento tornou-se um símbolo da revitalização cultural do povo Puyanawa.

O nome Atsa, que significa macaxeira, faz referência a um dos principais alimentos tradicionais da comunidade e simboliza fartura, união e continuidade da vida.

A abertura deste ano emocionou o público com uma entrada especial das lideranças e da comunidade, reforçando a força da história e da identidade do povo Puyanawa.

O cacique da Terra Indígena Puyanawa, Joel Puyanawa, destacou que o festival representa a vitória de uma longa caminhada de resistência e recuperação cultural.

"Hoje, o festival representa a retomada e o fortalecimento da nossa cultura. Conseguimos revitalizar aquilo que parecia perdido. Foi muita luta, muito trabalho, mas a nossa história nos deu força, sabedoria e dignidade. Tudo o que estamos mostrando aqui representa o nosso passado, o nosso presente e, principalmente, o nosso futuro. Fizemos uma entrada diferente justamente para que todos pudessem compreender o tamanho da nossa força e o valor da nossa história. Este festival é um presente para o nosso povo e também para quem vem de fora conhecer a cultura, a tradição e a história de um povo que parecia destinado a desaparecer, mas que hoje renasce fortalecido graças à confiança, à dedicação e à união da tribo Puyanawa."

O festival acontece entre os dias 18 e 23 de julho e oferece aos visitantes uma imersão na cultura indígena por meio de danças tradicionais, cantos, pinturas corporais, grafismos, culinária típica, artesanato, jogos indígenas, medicina tradicional, trilhas, banhos de igarapé e vivências espirituais que aproximam turistas e comunidade. 

Além de fortalecer a identidade cultural, o evento também movimenta a economia local por meio do turismo.

O prefeito Zé Luiz destacou que o crescimento do festival demonstra o potencial do município como destino turístico.

"Essa é uma gestão que trabalha lado a lado com as comunidades. Hoje vemos um grande número de turistas locais, nacionais e estrangeiros participando do festival. Isso mostra que estamos no caminho certo. As pessoas já se organizam para conhecer Mâncio Lima, visitar a Serra do Divisor e participar do Festival Atsa Puyanawa. Esse é o caminho para fortalecer a economia através do turismo. Hoje, o Festival Puyanawa se consolida como uma das maiores tradições culturais do nosso município."

A edição de 2026 presta uma homenagem especial ao saudoso Mário Mãpa Puyanawa, primeiro cacique da Terra Indígena e uma das maiores lideranças indígenas do Acre. Reconhecido internacionalmente pela defesa dos direitos do seu povo, Mário faleceu em 2020, vítima da Covid-19.

Durante a cerimônia, sua filha, Vari Puyanawa, falou emocionada sobre o legado deixado pelo pai.

"Hoje estamos celebrando a verdadeira identidade do povo Puyanawa através de várias expressões culturais. Meu pai foi um grande símbolo dessa luta e deixou uma missão para todos nós, seus filhos e herdeiros dessa liderança: dar continuidade ao seu trabalho. Ele não está mais presente fisicamente, mas tenho certeza de que, em espírito, está feliz ao ver que seguimos fortalecendo a liberdade, a cultura e a organização do nosso povo. Nós sofremos, resistimos e hoje seguimos mais fortes graças à energia e ao exemplo que ele deixou."

Uma história marcada pela conquista da terra

A história recente do povo Puyanawa tem no ano de 2000 um dos seus capítulos mais importantes. Após décadas de luta, foi consolidada a demarcação da Terra Indígena Puyanawa, garantindo o direito ao território tradicional e abrindo caminho para o fortalecimento da identidade cultural.

Naquele mesmo ano, a comunidade realizou sua primeira grande celebração cultural em comemoração à conquista da terra, marcando o reencontro com tradições que haviam sido interrompidas ao longo da história.

Também em 2000 ocorreu a transição da liderança tradicional. Depois de 17 anos como cacique, entre 1983 e 2000, Mário Mãpa Puyanawa transmitiu a liderança para seu filho Joel Puyanawa, conhecido tradicionalmente como Xanāybu Divake, que segue conduzindo o povo na valorização da cultura e no fortalecimento das novas gerações.

Representando o Governo do Acre, a secretária de Estado dos Povos Indígenas, Francisca Arara, ressaltou a importância do festival para a preservação da identidade dos povos originários.

"É um momento muito emocionante. O povo Puyanawa quase foi extinto, quase perdeu sua língua, sua cultura e seus kenê. Hoje vemos um povo organizado socialmente e culturalmente, com suas vestimentas, suas danças, pinturas, cantos e culinária. Isso é fundamental para fortalecer a cultura do Acre. Temos apoiado os Puyanawa, inclusive na área do turismo, em parceria com a Secretaria de Turismo, levando essa cultura para outros espaços e fortalecendo também sua organização interna. Para o Estado, esse trabalho é extremamente importante."

Ao longo dos próximos dias, centenas de visitantes terão a oportunidade de vivenciar uma experiência única, conhecendo de perto a riqueza da cultura Puyanawa, seus conhecimentos ancestrais e a força de um povo que transformou sua história de resistência em um exemplo de preservação cultural para o Acre e para o Brasil.